Quando chegamos em CP associávamos a vida numa cidade menor com uma alimentação mais saudável. Pode até ser, mas não seria para nós, nem para grande parte de seus habitantes. Neste lugar que parece tão perto da terra, a alimentação hipercalórica é a regra: gordura animal, carne, ovos, muito açúcar, arroz e feijão. Possivelmente já funcionou bem e ainda funciona para os poucos que preservam modos de vida mas tradicionais, que deslocam-se com sua própria energia e trabalham a terra, ou fazem outros trabalho braçais. Contudo, é progressivamente mais disfuncional para uma maioria de habitantes da sede do município que há muito adquiriu hábitos citadinos, possui carro, moto, e uma vida sedentária. Quem tem carro o usa diariamente, inclusive para chegar ao trabalho, que pode ficar a 4 ou 5 quarteirões de casa. Não é à toa que CP inaugurou este ano sua primeira academia de ginástica, um ano depois de ter inaugurado sua primeira Lan House. Não é à toa também que e mantém um grupo orientado por fisioterapeuta para motivar alguns idosos com problemas circulatórios e coronarianos a mexer o esqueleto. Em conversas com agentes de saúde ligados ao programa de saúde da família descobrimos que há grande número de obesos, hipertensos e diabéticos na cidade.
Bem, quando cheguei estava com sobrepeso e deslipidemia (colesterou e trigliceres altos). Fiz planos para reestabelecer uma vida mais saudável. Para isso trouxe algumas dicas de nutrição, minha bicicleta e a firme intenção de dedicar-me tão seriamente à ela quanto ao computador.
Aproiveitando-me do final do verão, pude me alimentar com frutas da estação, do próprio quintal da minha casa: manga e goiaba. As jaboticabas já haviam terminado. Com o fim das chuvas e a ajuda de uma vizinha plantamos uma horta. Tivemos um trabalho considerável porque antes precisamos pedir autorização para a poda de árvores ao conselho do meio ambiente, e conseguir o esterco, para depois fazer o trabalho com a terra propriamente. Fizemos uns 13 m2 de canteiros e plantamos: mostarda, hortelã, salsa, cebolinha, alface, rúcula e couve em uma primeira etapa e tomate cereja, repolho, pimentão e couve bruxelas em uma segunda etapa. Os que melhor funcionaram foram salsa, cebolinha, alface, rúcula e couve, mais principalmente a couve, a cebolinha e a salsa, que ainda colhemos para completar uma comida ou temperar um prato. Com o tempo, nossas idas para a cidade foram virando cada vez mais freqüentes e a horta, que precisa de trabalho e atenção diários vem decaindo.
No decorrer do ano tivemos as estações dos maracujás, dos limões, das mexericas e das laranjas. Colhemos ainda algumas bananas e mandiocas, uma pinha, duas toranjas e laranjas da terra. Quando a safra era mais pródiga, dividíamos com os vizinhos como a das mexericas e dos maracujás. Também fizemos doces para presentear alguns parentes na Argentina e até chegamos a trocar mexericas por outros produtos no sacolão.
O sacolão chegou este ano à cidade, um pouco antes da academia de ginástica. Lá passamos a comprar as verduras que antes tínhamos muita dificuldade de encontrar e até mesmo trazíamos de Belo Horizonte.Tem bons preços e diversidade de produtos. Antes dele, na ausência de qualquer tipo de feira na cidade, para ter verduras, as pessoas recorriam às vezes às hortas umas das outras, ou compravam de umas vans e caminhões que passavam em dias fixos da semana ou iam até o sacolão mais próximo em Pitangui ou Nova Serrana. Contudo, parece que não era problema a falta de verduras disponível no mercado. As pessoas de fato parecem pouco habituadas a comer verduras. Há uma anedota de que a antiga diretora da escola, ao tentar implementar uma merenda mais saudável para ou alunos foi gravemente reprimida por algumas mães que lhe disseram que seus filhos não eram porcos para comer “lavagem”, questionando assim o implemento de algumas beterrabas, cenouras e repolhos da horta entre o tradicional arroz e macarrão do alimento diário oferecido pelo Estado. Outra anedota aconteceu nesta última segunda-feira. Enquanto comprava umas beringelas a atendente me perguntou como eu as preparava. Puxando conversa ela comentou que comprávamos muita verdura, me perguntou se eu comia arroz e por fim comentou comigo que o patrão dela já tinha contado que eu comprava esse tanto de verdura era porque era vegetariano... Tinham uma explicação, embora eu não seja vegetariano, pois às vezes ainda compro carne no açougue. Este, sim, muitíssimo tradicional e popular na cidade. Vende carne fresca e barata e mata dois bois por semana.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
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